
Um obrigado muito especial,
João Covita, Maria Inês Martins, Marta Alves e Miguel Guerreiro
“Ice Scream”
Um obrigado muito especial,
João Covita, Maria Inês Martins, Marta Alves e Miguel Guerreiro
“Ice Scream”
Algumas destas pessoas conhecem a Antárctica como a palma das suas mãos e ainda ontem à noite tivemos a oportunidade de conversar com os mais idosos membros desta expedição: Fred Roots e Fritz Koerner. Estes senhores têm, respectivamente, 86 e 74 anos e têm um espírito muito mais dinâmico que muitos jovens da nossa idade. É incrível como eles fazem absolutamente o mesmo que todos nos (subir a montanhas, fazer caminhadas, e tantas outras coisas), apesar de aparentemente mais limitados pelos seus corpos envelhecidos, e como adoram conversar com os mais jovens, partilhando as suas histórias e experiências. Eles estiveram na Antárctica varias temporadas, tendo sido uns dos investigadores a fazer parte da primeira expedição cientifica neste continente. Apesar de toda a sua experiência, conseguimos ainda detectar nos seus olhos o brilho de um jovem que se fascina pela primeira vez com este local extraordinário. Estes senhores são uma autêntica prova de que a jovialidade nem sempre se prende com a idade, mas sim com a mente e com o espírito. É um prazer inimaginável viver esta expedição com pessoas como eles que, para nós, são quase como heróis dos nossos tempos.
Inês Martins e Marta Alves
Posso dizer que com esta viagem descobri algumas coisas acerca de mim. Fiquei completamente apaixonada por glaciologia e oceanografia, e penso que isso vai mudar as perspectivas que eu tinha a cerca do meu futuro. Agora percebo o Ian (músico), quando disse que ao olhar para as vastas paisagens da Antárctida, viu Deus. Para mim, não se trata propriamente de religião, mas sim da imensa beleza nunca antes vista que este continente apresenta. Ao absorver todos estes sentimentos, faz-nos pensar e olhar para as coisas de uma maneira diferente. Para mim é um grande privilégio estar na companhia de pessoas com uma vasta experiência de vida e com uma sabedoria fenomenal sobre a Antárctida. Aqui todos tem um conhecimento geral da Antárctida mas cada um é especializado em determinados campos (biologia marinha, geologia, oceanografia, glaciologia, etc). Depois desta experiência, compete-nos a nós fazer chegar as outras pessoas, a importância que os pólos têm sobre todo o planeta. É necessário sensibilizar as pessoas para a protecção do meio ambiente para que possamos usufruir da beleza que se esconde por todo o planeta.
Bem, depois desta maravilhosa experiência na região polar sul os meus olhos estão agora definitivamente virados para o norte.
Andreia Raposo
6 de Janeiro de 2008
Hoje foi o nosso ultimo dia a bordo do navio. Continuamos com as actividades dos action groups. Foram apresentados os projectos finais, todos eles bastante ambiciosos que esperemos que se venham a concretizar. Estamos a falar, nomeadamente, de organização de concursos, exposições, elaboração de paginas web, de recursos didácticos, de comunicados, etc. A base destes trabalhos assenta numa parceria com organizações já existentes e reconhecidas mundialmente.
Pessoalmente, estar integrada neste grupo (defesa dos direitos humanos) revelou-se um dos mais importantes momentos para mim. Senti que ganhei força para fazer a diferença e tomar iniciativas por aquilo em que acredito.
Foram colocadas folhas na sala de convivio para que todos escrevessemos as nossas ultimas impressões em relação à viagem. No fim do dia, as folhas estavam recheadas de mensagens de amizades que se formaram e de momentos vividos.
Fizemos tambem uma ultima reunião geral onde se constatou o sucesso da viagem a todos os níveis.
Acabamos a tarde com uma apresentação nossa sobre Portugal, onde falamos, superficialmente, do que caracteriza cada região do nosso país.
Ouvimos o anuncio para o nosso último jantar a bordo do Ushuaia. Foi engraçado ver como a tripulação decidiu preparar a ultima refeição com um toque diferente.
Pela noite, festejamos o nosso último dia a bordo do Ushuaia. Tiramos as ultimas fotos de grupo, começamos a despedirmo-nos e reflectimos sobre tudo o que passámos juntos.
Fizemos agradecimentos a tripulação que nos acompanhou nesta extradionária expedição e, para animar a nossa noite, tivemos uma demostração de talentos, que nos deixou muito surpreendidos. Ouve quem cantasse, quem dançasse, quem recitasse poemas, ...
Foram também entregues os prémios do concurso de poesia, sendo, o primeiro prémio, um copo que serviu para uma experiência sobre os efeitos da pressão na zona do afundado Titanic. Esse mesmo copo foi oferecido pela Belinda, que faz mergulhos para o estudo do histórico navio.
Amanhã espera-nos um longo dia de viagem até Buenos Aires.
Irina Boteta
5 de Janeiro de 2008
A seguir ao pequeno almoço assistimos a uma palestra, dada pelo Eric, cujo tema era “Sailing towards a sustainable future”. Nesta palestra salientou-se que os recursos naturais estão, de uma forma geral, a ser explorados pelo ser humano para além da sua capacidade de regeneração. Este tema também foi focado na palestra seguinte realizada pelo David, intitulada “Be the change?”, na qual nos foi dada a motivação e o método para tentar definir o problema e encontrar soluções para o mesmo. Ambas se debruçaram sobre o “futuro sustentável” e o quão próximo estamos de o conseguir se agirmos da forma mais correcta.
Da nossa necessidade de actuar surgiu a iniciativa de formar ‘action groups’ que, agrupando as diferentes nacionalidades nesta expedição, têm em vista tomar medidas que possibilitem combater diferentes problemáticas mundiais. Foram fundados cinco grupos de acção cujos temas são: Alterações climáticas (do qual fazem parte a Inês Murteira e o João), Sobreconsumo de recursos, Água (qualidade e quantidade), Direitos Humanos (integrado pela Marta e pela Irina) e Conservação da vida selvagem (grupo no qual a Inês Martins, a Andreia e o Miguel estão incluidos).
Depois de reunidos os diferentes grupos e de uma breve discussão sobre os temas, foram recolhidas algumas ideias dentro dos mesmos, que virão a ser partilhadas entre todos amanhã. Estamos muito entusiasmados e com vontade de contribuir para o bem-estar do nosso querido planeta!
Ainda hoje, tivemos diversas apresentaçoes dos membros da equipa do Students on Ice que já viveram na Antárctica. O David, o Fred, o Fritz, o Ian e o Alex partilharam connosco as suas experiências profissionais e pessoais neste magnífico mas perigoso local. Mostraram-nos imagens fascinantes, que revelavam tempos muito dificeis que todos ultrapassaram sempre com um espirito triunfante.
Mais uma vez, sobrevivemos à atribulada viagem da Passagem de Drake e, embora já não estejamos na Antárctica, com muita pena nossa, não perdemos a garra e vontade de aprender sempre mais! Estamos ansiosos pelo dia de amanhã!
Joao Covita e Marta Alves
4 de Janeiro de 2008
Todos os dias somos despertados pelo chamamento matinal e, sempre que isso acontece, eu e a minha colega de quarto resmungamos e ficamos na cama por mais uns minutos. Hoje, no entanto, o despertar foi particularmente diferente e revigorante. Era suposto levantarmo-nos às 7h, mas às 6 ouvimos a voz do Geoff dizer qualquer coisa como “If you are not at the deck watching this spectacular view, you should be”. Assim que ouvi estas palavras, saltei da cama, inacreditavelmente, e vesti o casaco por cima do pijama. Quando saí para o convés tive um dos momentos mais marcantes de toda a viagem, ao deparar-me com uma das paisagens mais belas, senão a mais bela, que alguma vez vi. É impossivel descrever a beleza, a imponência e o esplendor que estavam perante os meus olhos. A quietude do local e a virgindade da natureza, típicas da Antarctica, foram também impressionantes. Fiquei completamente extasiada e não consegui parar de apreciar e tirar fotos.
Fotografia: Students-on-ice
Continuámos a navegar por entre montanhas cobertas de gelo e icebergs flutuantes, até que, cerca de duas horas depois, encontrámos uma baía deslumbrante, coberta de “fast ice” (uma fina camada de gelo que se estende sobre o oceano). Depois de o staff verificar se o gelo era suficientemente espesso para suportar o nosso peso, lá desembarcámos, um pouco receosos, mas super entusiasmados. Seria o nosso último desembarque na Antarctica, e, como tal, teve um significado especial. Estivemos algum tempo a observar a beleza do local, a tirar fotos, e a divertirmo-nos, até que nos reunimos todos e tivémos um momento de reflexão acerca de como a nossa vinda à Antárctica vai mudar as nossas vidas. Após um momento de partilha destas reflexões, regressámos ao navio para o almoço.
Fotografia: Students-on-ice
Da parte da tarde, fizemos o nosso último “zodiac cruise”, tendo como paisagem de fundo a mesma que nos havia acompanhado desde a manhã. Foi espectacular: tivemos oportunidade de ver e fotografar focas e pinguins, deitados sobre os icebergs, e tentámos usufruir ao máximo daquele que seria o nosso último contacto com este continente magnífico. Regressámos ao navio com uma tristeza inevitável e uma enorme vontade de não deixar aquele local e toda a Antárctica, pela qual acabámos por nos apaixonar.
Fotografia: Students-on-ice
Não há dúvida de que este local, que, no fundo, é o ultimo local da Terra que não foi destruido pelo Homem, tem qualquer coisa de mágico que nos faz pensar acerca de tantas questões que a maior parte das pessoas, infelizmente, desprezam e ignoram. Espero que consigamos transmitir este sentimento, que é comum a todas as pessoas desta expedição, quando regressarmos a Portugal, e que consigamos alertar verdadeiramente as pessoas para a importância de preservar e respeitar a natureza para o bem da humanidade, dos animais e do mundo.
Inês Martins
Ou eu imaginei a chamada do Geoff, tal não era a minha ansiedade, ou então pensei que um dos constantes comunicados em castelhano da ponte era do Geoff. O meu colega de quarto não se lembra de eu ter falado com ele naquela noite, tal não era a camada de sono que ele também tinha. E de lembrar que aqui é sempre dia, só o sol é que se esconde ligeiramente por um pouco no horizonte.
Miguel Guerreiro
Publicado também em http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=24746&op=all
O dia começou às sete da manhã, com a entrada no Lemaire Channel. Pelo altifalante, fomos avisados que estávamos prestes a entrar num magnífico canal, delineado por grandes montanhas e glaciares.
Os olhos fixaram-se no percurso do navio, através das águas geladas, mesmo antes do pequeno almoço.
Nevava. O navio revelou-se coberto por um manto branco, o qual depressa se transformou num boneco de neve, com direito a cenoura e tudo!
Os gigantes gelados e rochosos, rodeavam o navio, revelando o quão pequenos somos, perante o poder da Natureza.
Os icebergues surgiam por todos os lados, alguns salpicados com pinguins, outros com focas. Conseguimos até avistar algumas baleias.
Ainda durante a manhã, depois do pequeno almoço, fomos a terra, a Yalour Islands. Cercados de pinguins, gelo, neve, aves, montanhas e oceanos, a paisagem revelou-se digna de um quadro, em que os humanos se conseguiam fundir com as leis do ecossitema. Alguns pinguins Gentoos guardavam os seus ovos, alguns as crias já nascidas, enquanto outros ajudavam na construção dos ninhos, transportando pequenas pedras.
De seguida, fizemos um pequeno cruzeiro nas Zodiac por entre imensos icebergues, que se revelaram com as mais variadas formas e tamanhos, muito para além do que a imaginação alcança. Uns tomavam parecenças com cogumelos, outros com baleias, cascatas, etc.
Regressados ao navio, almoçámos e tivemos algum tempo de descanso, que aproveitámos para conviver com os outros estudantes.
Pela tarde, assistimos a uma palestra, dada pelo cientista Fred Roots, sobre o Ano Polar Internacional e o Tratado da Antárctida, onde foi evidenciada a importância da cooperação científica, a nível internacional, para o desenvolvimento da ciência. Não sendo de ninguém, a Antárctida é de todos. Nenhuma especie de actividade militar é permitida neste territorio, sendo, assim, o único continente do planeta que nunca presenciou uma guerra.
Fomos, depois, novamente a terra. Pisámos, então, Port Lockroy, onde tivemos a oportunidade de comprar algumas recordações e, finalmente, enviar postais!
De seguida, fomos a uma zona onde pudemos observar ossadas de baleias, expostas numa área de nidificação de pinguins gentoos e de Blue-Eyed Shag. Tivemos também a oportunidade de observar de perto uma foca leopardo. É bastante impressionante ver tais animais a poucos passos de distância, dando a sensação de sermos directamente transportados para os cenários dos documentários televisivos.
Regressados ao navio, jantámos e assistimos a uma palestra da cientista Belinda, sobre mergulhos ao fundo do oceano, na busca do histórico Titanic, afundado em 1912, no Atlântico Norte. Ficamos elucidados sobre a logística e os processos do mergulho, assim como da dinâmica do fundo dos oceanos, que normalmente encaramos como apenas uma enorme massa de água. Pudemos observar fotos de evidências de tectónica de placas e da actividade vulcânica.
Amanhã é o nosso último dia para a descoberta deste continente.
Vamos agora aproveitar a noite, que não consegue espreitar por entre a persistente luz do dia.
Inês Murteira
Irina Boteta
1 de Janeiro de 2008
O convívio com pessoas de todas as partes do Mundo tem sido, como não podia deixar de ser, uma constante. Criamos novos horizontes e apercebemo-nos de novas realidades.
Esperemos, agora, pelo dia de amanhã.
A propósito – Bom Ano Novo!
Inês Murteira
O dia de hoje foi absolutamente fantástico. E extraordinário como a Antárctida nos consegue surpreender e cativar ainda mais a cada dia que passa.
De manha tivemos o enorme privilégio de pisar o continente antárctico propriamente dito. Passear numa praia rochosa de um continente tão hostil como a Antárctida, que se estende por milhares de quilómetros, é uma sensação tão esmagadora quanto indescritível. Para além de uma grande sensação de insignificância, o prazer em apreciar a natureza no seu estado mais puro e selvagem e enorme e impagável.
Após uma hora passada na óptima companhia dos pinguins, que são, aliás, criaturas muito afáveis e curiosas, regressamos ao navio para um almoço tardio.
Por volta das 4 da tarde, dirigimo-nos para a nossa próxima paragem, também tão bela e ainda mais inacreditável que a anterior. Trata-se de uma base argentina construída no Cabo Esperanza onde vivem, de facto, 8 famílias, levando uma vida perfeitamente normal e civilizada, ou seja, usufruindo de educação e de todos os frutos da tecnologia (televisão, internet, e tantos outros). As pessoas da base receberam-nos tão bem e com tamanho entusiasmo que nos fizeram sentir totalmente em casa. As crianças estavam muito entusiasmadas com a nossa chegada e fartaram-se de conversar connosco (aliás, com os que percebem e falam espanhol). De facto, elas gostaram tanto da nossa presença que desejaram que o vento aumentasse de tal forma a não podermos abandonar a base. E durante algumas horas o vento fez-lhes a vontade. Por entre o frio e o vento, mas rodeados de uma paisagem fenomenal, passamos essas horas à espera que o vento amainasse. Foi então que admiramos verdadeiramente estas … pessoas, que vivem todo o ano num continente cujo clima é severo ate para os animais polares.
Quando finalmente partimos, tivemos pena de deixar para trás um local de tamanha beleza, onde nos sentimos envolver, por um lado, pelo lado selvagem da natureza e, por outro, pela amabilidade dos habitantes.
Após o regresso ao navio, completamente encharcados, e um jantar revigorante, celebramos a passagem de ano, numa festa deveras peculiar. A maior parte das pessoas vestiram a maior “misturada” que conseguiram, combinando roupa térmica com roupa interior. Mas no meio de todas estas combinações horrendas, foi extraordinário ver a rapariga japonesa vestida com um kimono lindíssimo e os dois irmãos árabes vestidos com a roupa característica dos Emirados Árabes Unidos. O ambiente vivido na festa foi excelente e depois da meia noite a expressão “happy new year” ouviu-se na sala vezes e vezes sem conta. Foi, sem duvida, a melhor passagem de ano que alguma vez tivemos.
Foi magnifico ver a neblina abrir-se lentamente e ao longe comecarmos a avistar Elephant Island. Isto tudo, claro, so pouco depois de nos termos deslumbrado com os primeiros icebergs que vimos na viagem.
Hoje, de tarde, tivemos a nossa primeira saida de semi-rigido para o azul Antarctico. Todos partilhamos da mesma opiniao: O homem ainda nao inventou as palavras que se poderiam usar para descrever o potencial que a natureza tem. Nao podemos ignorer que esta e a melhor viagem das nossas vidas e que, daqui, podemos lever muito para o mundo que aguarda o nosso regresso.
Tivemos a oportunidade de observar pinguins, icebergs, queda livre de pequenas fraccoes de icebergs que mesmo assim soavam a trovoes, e alguns de nos avistaram uma foca leopardo.
Depois do jantar, foi-nos possivel seguir, de perto, quarto baleias corcunda. Mais uma vez, o espanto partilhado por todos e o significado que aquele momento teve, a forma como ele nos marcou, foi indescritivel.
Fotografia Students-on-ice.
Agora sabemos e compreendemos tudo o que podemos levar daqui para casa e, com alguma sorte, amanha saberemos ainda mais.